E no busão…

Voltando da reunião da comissão de formatura, em pleno domingo ao meio-dia, estou lá, querendo chegar logo em casa. Eis que em determinada estação, embarcam três senhôuras que vêm sentar perto de mim. Logo após se acomodarem, uma delas continua a conversa que provavelmente já fora iniciada no tubo:

Aí foi ficando tarde, e a gente não tinha como voltar. Eu não conheço nada de João Pessoa e estava lá perdida de noite. Aí nós começamos a rezar, pedimos para Deus que arrumasse um jeito para voltarmos. Então, do nada, apareceu um carro, fez a curva e parou na nossa frente. Sabe aqueles carrões do ano, novinho em folha? O moço abriu a porta e mandou a gente entrar. (etc.)

Eu fiquei pasma, embora até agora não saiba exatamente com o quê. O discurso “rezei pedindo para Deus” ou umas doidas aceitando carona de estranhos em tempos como esse. Ou o fato de que a mulher ali no ônibus era de verdade, e não uma personagem de novela, filme ou romance.

De qualquer modo, o que sinto com relação a esse tipo de discurso é contraditório. Ao mesmo tempo que critico os que adotam a idéia de que uma entidade superior será a causa de tudo (para o bem ou para o mal) e que se você está ferrado a melhor solução é sentar e rezar (eu adotaria, no mínimo, o “agir para sair da situação”…), por outro lado sinto uma inveja tremenda dessas pessoas que realmente pensam que conquistaram coisas por causa da tal da entidade, e não por si. Mais ainda: dessas pessoas que realmente acreditam que tem alguém lá que as protege – e acreditam de tal modo que quando alguém oferece carona após rezarem pedindo para Deus por tal, sequer questionem as intenções do caronista e embarquem no carro.

7 comentários em “E no busão…”

  1. É como no caso do ferreiro, às vezes a ignorância é uma benção. É contraditório porque quanto mais se descobre, ao invés de nesse caso o conhecimento aumentar a confiança, mais fica evidente a insignificância do homem e o acaso de tudo. De vez em quando penso se essa não é a resposta. Em países de primeiro mundo o índice de ateísmo é elevado (existem países europeus onde estranhamente a cada dois católicos, um não acredita em Deus), ou seja, as pessoas não esperam que nada venha da providência, tentam conquistar por elas mesmas. Já nos subdesenvolvidos o índice de religiosidade é elevado, ou seja, grande parte das pessoas atribuem tudo a Deus. Esperam de joelhos que apareça uma solução divina.

    O Deus da imagem tá mais pra Alá.

  2. Vi a sinopse no site da cultura. É um filme sobre rei Arthur, não é? Romances Arthurianos estão entre a literatura que mais gosto, mas por algum motivo todos os filmes sobre a lenda não ficaram à altura. São ruins.

  3. Permita-me compartilhar da sua inveja. Como eu seria feliz se acreditasse de verdade que, com tanta coisa mais importante para ser melhorada nesse mundo, uma entidade superior ia estar preocupada justo comigo parado num ponto de ônibus, perdido numa cidade que não conheço.

  4. A minha irmã que conheço não tomaria nenhuma atitude a não ser mandar o acontecimento e todos os nele envolvidos para aquele lugar. O que não deixa de ser, de um ponto de vista simbólico, comparável a idéia de pedir algo pro tal ente superior. Então não inveje minha irmã. Sinta-se invejada por este que aqui te escreve!

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