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	<title>.:Hellfire Club:. &#187; 2666</title>
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		<title>Putas Assassinas (Roberto Bolaño)</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Oct 2010 15:56:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Publicado no Brasil pela Companhia das Letras pela primeira vez em 2008, e agora em 2010 ganhando a primeira reimpressão, Putas Assassinas trata-se de uma coletânea de contos do escritor chileno Roberto Bolaño. Eu confesso que ainda estou começando a conhecer o autor (lendo 2666 aos poucos, lembram?) e fiquei bastante impressionada com o que [...]]]></description>
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<p style="text-align: justify;"><a href="http://meiapalavra.megadodo.com.br/files/2010/10/Putas_assassinas.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-4095" style="border: 0pt none; margin: 5px;" title="Putas_assassinas" src="http://meiapalavra.megadodo.com.br/files/2010/10/Putas_assassinas.jpg" alt="" width="209" height="313" /></a>Publicado no Brasil pela Companhia das Letras pela primeira vez em 2008, e agora em 2010 ganhando a primeira reimpressão, <a title="putas assassinas" href="http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=11940" target="_blank"><em>Putas Assassinas</em></a> trata-se de uma coletânea de contos do escritor chileno <a title="roberto bolaño" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/tag/roberto-bolano/" target="_blank">Roberto Bolaño</a>. Eu confesso que ainda estou começando a conhecer o autor (lendo <em><a title="2666" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/tag/2666/" target="_blank">2666</a></em> aos poucos, lembram?) e fiquei bastante impressionada com o que vi, ainda mais quando os fãs de Bolaño dizem que esse é o livro mais fraco dele. Se realmente é, fico imaginando os demais deve ser excelente.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é que todos os contos sejam perfeitos. Mas todos chamam a atenção por algum aspecto, mesmo os que se revelam mais sem graça. Os temas são recorrentes (e inclusive ecoam no romance <em>2666</em>): sexo, violência, exílio, pesadelo. A maioria das personagens mostram aquele deslocamento de quem vive em vários lugares mas não reconhece nenhum como seu. São de outros países, vão para outros países e se perdem, tentando se encontrar em resgates de memória.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-4847"></span>O mais interessante é o que ele faz com o gênero. Não escondo que sou da escolinha Allan Poe de apreciação desse tipo de texto: acho que é quase como o haikai da prosa, e ganha quem consegue dizer muito com pouco. Mais além, acredito que um efeito só é causado no leitor se houver concisão. Mas Bolaño segue o caminho oposto e se dá muito bem. É quase como se pintasse um quadro e incluísse detalhes mínimos, visíveis apenas para quem se aproxima da tela. Informações que parecem irrelevantes se fundem ao texto e complementam os sentimentos e dúvidas das personagens, dão vida ao espaço e muitas vezes &#8211; surpresa &#8211; fluidez à narrativa.</p>
<p style="text-align: justify;"><em>O retorno</em> é de longe o meu favorito, talvez por ser o que mais bem-humorado. É ler as primeiras linhas do conto para já ser conquistado: &#8220;<em>Tenho uma notícia boa e uma má. A boa é que existe vida (ou algo parecido) depois da vida. A má é que Jean-Claude Villeneuve é necrófilo.</em>&#8221; Ou quando quase no fim de <em>Dias de 1978</em> diz &#8220;<em>Esse relato deveria acabar aqui, mas a vida é um pouco mais dura que a literatura</em>.&#8221; São passagens que continuam com você mesmo após fechar o livro.</p>
<p style="text-align: justify;">Chama a atenção também como ele consegue tirar mais do ato de narrar, como faz no conto que dá título ao livro. Em <em>Putas Assassinas </em>temos o registro da fala de uma mulher, e as respostas do homem são descrições de suas ações. Funcionou muito bem porque inicialmente você apenas deduz o que está acontecendo, para em determinado momento, as ações deixam óbvio, e aí a fala da personagem confirma o que você previu. Muito interessante mesmo.</p>
<p style="text-align: justify;">Outra questão são os aspectos autobiográficos. Eu acabei caindo em tentação e fui atrás de um pouco mais da biografia de Bolaño enquanto lia <em>Putas Assassinas</em>, e em alguns contos elementos da vida do autor ficam bem evidentes, como o pai que era um ex-pugilista e aparece no excelente <em>Últimos entardeceres na terra</em>. Pode ser que Bolaño tenha colocado pistas falsas no texto, mas não dá para não estabelecer essas relações, sobretudo quando a personagem assume um kafkniano &#8220;B&#8221; como nome.</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, dá para dizer que mesmo que com alguns momentos não tão bons, no geral os contos são excelentes, fazendo de <em>Putas Assassinas </em>uma ótima leitura. Foi também muito bom conhecer o lado contista de Bolaño. E volto a insistir: se esse é o trabalho mais fraco dele, preciso urgentemente ler mais dele.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Putas Assassinas</strong><br />
Roberto Bolaño<br />
Tradução: Eduardo Brandão<br />
224 páginas<br />
Preço sugerido: R$ 39,50</p>
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		<title>2666: A parte de Fate</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Sep 2010 13:02:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<description><![CDATA[Dando continuidade à leitura de 2666 de Roberto Bolaño, acabo de terminar A parte de Fate. Para quem chegou aqui agora, vale lembrar que estou escrevendo sobre a obra aos poucos, seguindo a ideia inicial de Bolaño de que cada parte seria um livro. Sobre A parte dos críticos você pode ler o artigo clicando [...]]]></description>
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<p style="text-align: justify;"><img class="alignright" style="border: 0pt none; margin: 5px;" src="http://blog.meiapalavra.com.br/files/uploads/2010/07/2666-208x300.jpg" alt="" width="208" height="300" />Dando continuidade à leitura de <em>2666</em> de Roberto Bolaño, acabo de terminar <em>A parte de Fate</em>. Para quem chegou aqui agora, vale lembrar que estou escrevendo sobre a obra aos poucos, seguindo a ideia inicial de Bolaño de que cada parte seria um livro. Sobre <em>A parte dos críticos</em> você pode ler o artigo <a title="a parte dos críticos" href="http://www.anica.com.br/2010/07/16/2666-a-parte-dos-criticos-2/" target="_blank"><strong>clicando aqui</strong></a>, e sobre <em>A parte de Amalfitano</em> você pode ler <a title="a parte de amalfitano" href="http://www.anica.com.br/2010/07/23/2666-a-parte-de-amalfitano/" target="_blank"><strong>clicando aqui</strong></a>. Vamos seguir então aos comentários sobre a terceira parte de <em>2666</em>.</p>
<p style="text-align: justify;">Eu estava com algumas leituras acumuladas, e acabou que passou mais de um mês entre a conclusão da parte anterior e a dessa. O que no final das contas foi algo positivo, acabou possibilitando um envolvimento com a nova personagem (o jornalista norte-americano Fate) que provavelmente não seria possível se eu tivesse engatado a leitura buscando os críticos ou Amalfitano. Porque é assim que começamos, com uma personagem completamente nova, em um lugar completamente novo e só pensando o que é que isso tudo tem a ver com o que tinha sido lido até então.</p>
<p style="text-align: justify;"><span id="more-4731"></span>O ritmo da narrativa é mais parecido com a parte de Amalfitano, embora pareça mais &#8220;episódica&#8221;. Um parágrafo é um momento, corta, vai para outro e assim segue. Acaba nos prendendo não só para saciar a curiosidade sobre qual seria a relação dele com o que já foi visto, mas porque a personagem em si se revela interessante: Fate é um repórter que escreve para uma revista voltada para a comunidade negra. Ele parece tão deslocado de tudo o que está vendo e relatando que em alguns momentos você precisa acabar lembrando em várias situações que ele <em>também</em> é negro. Tal como vimos com Amalfitano, aquela sensação de estar em um lugar sem fazer parte dele.</p>
<p style="text-align: justify;">Fate acaba sendo chamado para substituir o jornalista esportivo e cobrir uma luta em uma cidade do México. É quando finalmente  a história de Fate se cruza com as que o leitor já sabia. O repórter segue para Santa Teresa, onde fica sabendo dos assassinatos. Aqui lembrei do que tinha dito n&#8217;A parte de Amalfitano sobre a frustração de expectativas com a qual Bolaño lida tão bem. Você pensa que vai começar uma história de investigação, que Fate de repente assumirá o papel de detetive e buscará pistas sobre os assassinatos&#8230; mas o chefe dele não o autoriza a fazer a reportagem sobre o assunto, e mesmo quando uma outra repórter oferece para ele a oportunidade de entrevistar na prisão o principal suspeito dos crimes, Fate deixa o evento de lado.</p>
<p style="text-align: justify;">A narrativa se desvia para a relação entre Fate e Rosa Amalfitano, que acaba mostrando um outro lado de Santa Teresa. A aridez permanece, mas agora o machismo da cidade parece falar mais alto. Combinando outros elementos já apresentados anteriormente, o fato é que o leitor começa a suspeitar de todas as personagens masculinas sobre os crimes que estão acontecendo na região. Isso ficou evidente para mim em um trecho quando Rosa conta sobre um dia que encontrou um colega da universidade por acaso na rua; ele a convida para entrar no carro e você pensei &#8220;Já era.&#8221;</p>
<p style="text-align: justify;">E nessas suspeitas, o autor acaba desviando nossa atenção, por um momento é esquecido que os crimes de Santa Teresa não são a única questão a ser respondida. E eu adoraria comentar sobre a conclusão desse capítulo, mas a verdade é que pode acabar estragando a experiência de leitura de muita gente, até porque carrega novas questões. Mas fiquemos assim: fôlego novo para a história, e mais vontade ainda de continuar lendo. E a essa altura já deu para ter certeza que Bolaño é um danado que não vai entregar o ouro fácil para ninguém.</p>
<p><strong>2666</strong></p>
<p>Roberto Bolaño<br />
Tradução: Eduardo Brandão<br />
856 páginas<br />
Preço sugerido: R$ 55,00</p>
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		<title>2666: A parte de Amalfitano</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Jul 2010 12:35:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Continuando a leitura de 2666 de Roberto Bolaño, terminei ontem à noite a segunda parte (A parte de Amalfitano). Para situar quem acabou de chegar, estou seguindo na direção contrária do que foi adotado pela família do autor (publicação do que seriam cinco livros em um só) e fazendo os comentários aos poucos, sempre antes [...]]]></description>
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<p style="text-align: justify"><a href="http://www.anica.com.br/files/2010/07/2666.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-4507" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://www.anica.com.br/files/uploads/2666-208x300.jpg" alt="" width="208" height="300" /></a>Continuando a leitura de <em>2666</em> de Roberto Bolaño, terminei ontem à noite a segunda parte (A parte de Amalfitano). Para situar quem acabou de chegar, estou seguindo na direção contrária do que foi adotado pela família do autor (publicação do que seriam cinco livros em um só) e fazendo os comentários aos poucos, sempre antes de iniciar a parte seguinte. Minhas opiniões sobre a primeira parte (A parte dos críticos) você pode encontrar <a title="a parte dos críticos" href="http://www.anica.com.br/2010/07/16/2666-a-parte-dos-criticos/" target="_blank"><strong>aqui</strong></a>.</p>
<p style="text-align: justify">Eu sei que em teoria estou lendo o livro tal e qual a qualquer um &#8211; até porque mal estou interrompendo a leitura. Por causa disso acho que as sensações que tive sobre A parte de Amalfitano não serão tão diferentes, talvez só os achismos sobre o que as outras três partes podem trazer, o que será até divertido de confirmar depois. A verdade é que se não fosse a já familiar dificuldade para ler o catatau na cama, fiquei em alguns momentos com a impressão que tratava-se de um outro livro.</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-4518"></span>A parte de Amalfitano é extremamente melancólica e densa, muito densa. Ontem quando concluí a leitura fiquei morrendo de vontade de voltar para o começo e reler os trechos em que Amalfitano aparece para os críticos, porque o que ele falava ali ganharia toda uma outra conotação depois de saber o que ele vivera antes daquele encontro, especialmente aquele trecho no qual comenta sobre a sombra se separando do escritor que trabalha para o Estado. A narrativa trata basicamente dos caminhos que o levaram a viver em Santa Teresa (cidade onde encontrará os críticos), começando do momento que sua esposa Lola o abandona para viajar em busca de um poeta.</p>
<p style="text-align: justify">Quando falo que a segunda parte é diferente, é porque realmente distoa do que foi visto antes, tendo como único elo três elementos que se repetem d&#8217;A parte dos críticos: Amalfitano, o livro de Dieste pendurado no varal e os assassinatos que estão acontecendo em Santa Teresa.  Mesmo o estilo é diferente, tendendo muito mais para o fluxo de consciência do que para um discurso direto, o que funciona muito bem se considerar que um dos temas recorrentes dessa parte é a loucura.</p>
<p style="text-align: justify">A loucura do poeta que Lola persegue, depois a loucura de Lola e então o próprio Amalfitano questionando se está ou não louco. A rapidez do estilo adotado por Bolaño para registrar diálogos e pensamentos nessa segunda parte acabam justamente criando aquele redemoinho que tiram a segurança da personagem (e óbvio, do leitor) sobre o que é real, sobre o que é certo. E no final das contas, acredito eu, pesam bastante para o plot dos crimes, mas aqui provavelmente também pela união de alguns elementos que são colocados na primeira parte.</p>
<p style="text-align: justify">Sobre isso, a ideia que as duas partes dão é que Bolaño brinca um pouco com as exepectativas do leitor. Sempre retomando aquela ideia de que o ato de ler carrega junto o de prever, os elementos que ele oferece na primeira parte apontam para um grande clímax que não acontece. E agora a fórmula se repete: quando parece que tudo tende a levar a uma conclusão, ele segue uma outra direção. Da minha parte acho um exercício ótimo como leitora (e bem, da parte dele como escritor), mas tenho a sensação que no fim da segunda parte ele pode perder o leitor que busca apenas um enredo com  estrutura básica de começo meio e fim, digamos assim.</p>
<p style="text-align: justify">Isso para não falar da questão da melancolia, que comentei inicialmente. Não são só as ações (ou em alguns momentos a falta delas) de Amalfitano que constroem esse tom. As personagens ao seu redor, desde a filha até um possível novo interesse romântico, mostram a aridez de Amalfitano, como ele simplesmente não sente. Aridez como a de Santa Teresa, que cresce ainda mais na história e se revela triste tal como o protagonista. Eu sei que isso varia muito de leitor para leitor, mas para quem não suporta o calor como eu, dá quase para entender porque Amalfitano fica daquele jeito nesse lugar.</p>
<p style="text-align: justify">Concluindo, a leitura continua sendo uma ótima experiência &#8211; e é experiência mesmo, extrapola um pouco aquela linha da leitura por puro entretenimento. E a verdade é que agora mal posso esperar para ver qual a próxima expectativa que será frustrada na terceira parte (talvez o fato de que não será frustrada?). E sim, eu continuo evitando ler o máximo possível o que saiu por aí sobre o livro, mas acabei lendo o post no blog do Tony Bellotto e aproveito para recomendar aqui: <a title="testamento geométrico" href="http://www.blogdacompanhia.com.br/2010/07/testamento-geometrico/" target="_blank">Testamento geométrico</a>. Em tempo, se você ainda não conferiu, corre lá no blog do Meia Palavra para ler o <a title="10 perguntas e meia para tony bellotto" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/2010/07/21/10-perguntas-e-meia-para-tony-bellotto/" target="_blank">10 Perguntas e Meia para Tony Bellotto</a>. Está bem legal!</p>
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		<title>2666: A parte dos críticos</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Jul 2010 13:22:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Anica</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A tradução de Eduardo Brandão para 2666 do escritor chileno Roberto Bolaño é, sem dúvida, um dos maiores lançamentos literários aqui no Brasil em 2010. E por maiores não falo apenas da importância do acesso ao texto em português, mas também ao tamanho do catatau publicado pela Companhia das Letras: 856 páginas, adotando a decisão [...]]]></description>
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<p style="text-align: justify"><a href="http://www.anica.com.br/files/2010/07/2666.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-4507" style="border: 0pt none;margin: 5px" src="http://www.anica.com.br/files/uploads/2666-208x300.jpg" alt="" width="208" height="300" /></a>A tradução de Eduardo Brandão para <em>2666</em> do escritor chileno Roberto Bolaño é, sem dúvida, um dos maiores lançamentos literários aqui no Brasil em 2010. E por maiores não falo apenas da importância do acesso ao texto em português, mas também ao tamanho do catatau publicado pela Companhia das Letras: 856 páginas, adotando a decisão da família de Bolaño em não dividir <em>2666</em> em cinco partes como sugerido pelo escritor para facilitar o sustento dos filhos quando morresse. A obra foi publicada mais de um ano após sua morte, mas, como garante Ignacio Echevarría em nota à primeira edição, “o romance se aproxima muito do objetivo que ele traçou”.</p>
<p style="text-align: justify">E eu sei que para muitos fãs de Bolaño (e de <em>2666</em>) eu provavelmente estarei cometendo uma heresia, mas decidi seguir o caminho oposto da família, e comentar o livro por partes, publicando os comentários  sempre antes de iniciar a leitura da parte seguinte. E para começar, vamos de <em>A parte dos críticos</em>, primeira parte de <em>2666</em>. Acredito ser importante destacar aqui que estou tentando ler o mínimo possível sobre o livro para não estragar a experiência, e que muito do que falar agora eu posso contrariar em textos futuros. Mas bem, qual é a graça de se ler uma obra sem participar da brincadeira da adivinhação do que está por vir?</p>
<p style="text-align: justify"><span id="more-4512"></span><strong>A parte dos críticos</strong></p>
<p style="text-align: justify">Eu tenho uma curiosidade enorme de conhecer a obra de Bolaño porque muitas pessoas próximas que acredito terem bom gosto literário simplesmente adoram o que ele publicou. Mas eu sou teimosa e encasquetei que meu primeiro Bolaño seria o <em>tão-falado-2666</em>, que demorou um pouco para chegar no Brasil porque Brandão levou mais de um ano para traduzir a obra.<sup><a id="identifier_0_2620" title="para saber mais sobre a tradução, vale a pena conferir uma entrevista com Brandão para a Livraria da Folha" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/2010/07/15/2666-a-parte-dos-criticos/#footnote_0_2620">1</a></sup> E então finalmente tive a oportunidade de ler o livro, com as expectativas lá no alto, é óbvio.</p>
<p style="text-align: justify">E Bolaño já começa impondo um ritmo de narrativa mais lento, fazendo com que o leitor mais afoito volte a acostumar os olhos a uma leitura mais cuidadosa, detalhada. O autor não tem pressa e vai desenvolvendo as personagens e os eventos que as conectam de forma cuidadosa: não são apenas suas ações que os definem, são seus sonhos, o que se pensou mas não foi dito, o modo como se relacionam com o que ou quem gostam.</p>
<p style="text-align: justify">E por causa disso, quanto menos se espera, você já está completamente amarrado pelo quarteto de críticos apaixonados pela obra do recluso escritor alemão Benno von Archimboldi. Espinoza, Pelletier, Norton e Morini se encontram nos congressos de estudos literários que frequentam, e desenvolvem um grande laço de amizade justamente por causa do interesse em comum – Archimboldi – e, mais precisamente, por onde andará Archimboldi.</p>
<p style="text-align: justify">A relação entre eles se estreita, e apesar de obviamente as cutucadas que Bolaño dá na crítica literária ficarem mais ao gosto de quem é da área, ainda assim a amizade independe desse aspecto, e mesmo quem não é muito familiar aos estudos literários vai acabar se encantando com as personagens, até mesmo ao se enxergar na situação de apaixonado que eles se encontram. Isso não precisa ser só entre leitor e escritor, aparece de tantas formas: o músico e o sujeito que o escuta, o cineasta e quem o assiste. É a relação com a arte.</p>
<p style="text-align: justify">E nisso, um dos trechos mais memoráveis é o dos críticos conversando com a dona da editora que publicou Archimboldi pela primera vez, a senhora Bubis. O comentário da mulher sobre o gosto que tinha pela obra de Grosz e da diferente reação que ela tinha para seus quadros da que seu amigo tinha é genial. A questão da diferença entre o gostar e o entender, e de como uma obra pode refletir de maneiras diferentes de acordo com quem a vê.</p>
<p style="text-align: justify">É o que acaba nos levando ao trecho com o pintor Edwin Johns, que decepou a própria mão para fazer o que seria sua obra-prima.  O artista causa reações diferentes nas personagens, sendo a mais forte certamente sobre Morini, o único que lhe pergunta a razão da mutilação. A história é retomada na conclusão da primeira parte, servindo como o elemento que faltava para definir a relação dos quatro críticos.</p>
<p style="text-align: justify">Como comentei, evitei ao máximo possível saber sobre <em>2666</em> antes de completar a leitura, mas é óbvio que do básico do enredo é impossível fugir, e sei que uma pequena história contada para os críticos enquanto seguiam uma pista de Archimboldi no México, de assassinatos de centenas de mulheres, vai acabar se desdobrando nas partes que virão. Mas no momento o que temos é isso: esse primeiro quadro com a relação entre os quatro críticos e a relação desses com Benno von Archimboldi.</p>
<p style="text-align: justify">Eu adorei, especialmente pelo modo como Bolaño conduz a narrativa. Um “truque” legal utilizado por ele é mudar a forma de escrever de acordo com o que está representando. Por exemplo, um sujeito está contando uma história, a fala vem com marcas de oralidade – aquelas pequenas idas e vindas de quando relatamos algo. A parte do email de Norton é simplesmente fantástica, com ações de Pelletier e Espinoza entrecortadas por trechos do que ela escreveu para eles. Ou ainda, Amalfitano falando sobre os artistas e o Estado na América Latina, fala longa e cheia de metáforas que é cortada por um “Não entendi nada do que você disse” de Norton.</p>
<p style="text-align: justify">O texto é quase como um labirinto, que em alguns momentos você continua seguindo e com a certeza de que está no caminho certo, em outros anda, anda e anda para então dar de cara com uma parede indicando que é hora de recomeçar. Mas não pensem que isso faz de <em>2666</em> um texto difícil. Muito pelo contrário: Bolaño é acima de tudo um contador de histórias, e a primeira parte fluiu muito bem.</p>
<p style="text-align: justify">Para quem ficou curioso, <a title="2666 na companhia" href="http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12537" target="_blank">no site da Companhia das Letras está disponível um trecho do livro em pdf</a>. Vale a pena conferir, mas se as outras quatro partes do livro forem tão boas (ou melhores) do que a primeira, vale a pena é ir atrás do livro mesmo.  Se já leu e quer saber mais sobre outras obras do Bolaño, não deixe de conferir as resenhas do Pips para <a title="noturno do chile" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/2010/03/18/noturno-do-chile-roberto-bolano/" target="_blank">Noturno do Chile</a>, <a title="os detetives selvagens" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/2010/01/26/os-detetives-selvagens/" target="_blank">Os Detetives Selvagens</a> e <a title="estrela distante" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/2010/01/04/estrela-distante/" target="_blank">Estrela Distante</a> já publicadas aqui no blog do Meia Palavra. Enquanto isso, aguardo dicas  das melhores posições para ler <em>2666</em> na cama, há!</p>
<p style="text-align: justify"><em>(Sim, esse texto foi <a title="no meia" href="http://meiapalavra.mtv.uol.com.br/2010/07/15/2666-a-parte-dos-criticos/" target="_blank">publicado ontem no Blog Meia Palavra</a>)</em></p>
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