Uma dedicatória

Cornell Capa. Teenage Girls Resting Feet at First Formal Dance at the Naval Armory.

Eu acho que nesse momento dizer que 2025 foi um ano estranho é quase um pleonasmo. Não só 2025, parece que estamos acumulando anos estranhos, tropeçando meio às cegas desde que as coisas começaram a dar errado de um modo geral1. Mas divago. O fato é que 2025 foi sim um ano estranho, em partes pela experiência de ter uma pessoa muito querida naquele limiar entre vida e morte durante um período prolongado de tempo.

Sol é uma pessoa extraordinária – quem conhece sabe. Ela é tão extraordinária que ano passado mais de uma vez contradisse plantonista da UTI que nos alertava que ela poderia morrer a qualquer momento. Extraordinária porque contradisse estimativas e está aqui conosco, um ano depois. E mesmo ainda trabalhando física e mentalmente todo o trauma que viveu, ainda tira tempo para lembrar pessoas que nem conhece sobre a importância da vacina do HPV.

Em uma saída para um café (que privilégio, ainda temos nossos cafés!) falei para ela sobre como foram os dias em que ela estava apagada. Falei da primeira vez, quando um temporal despencou na cidade, uma chuva assustadora quando a vi e me dei conta ao mesmo tempo do milagre que é um corpo funcionando e de quantas coisas podem dar errado conosco. A médica chamou e avisou que poderia ser a última noite. Não foi. Não foi fácil, a recuperação ainda está em andamento, mas ela está aqui.

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The saddest of songs I’ll sing for you

“Talvez não haja comparação entre Ian dormir com Laura e ‘Cães de Aluguel’, afinal. Ian não tem Harvey Keitel e Tim Roth no elenco. E Ian não é engraçado. Nem violento. E a trilha sonora dele é uma bosta, a julgar pelo que ouvíamos através do teto. Já chega disto.” (Nick Hornby, Alta Fidelidade)

Eu sempre tive certeza de que se minha vida fosse uma comédia romântica, o cara responsável pela trilha sonora teria um senso de humor um tanto peculiar. As canções nunca batem com o que está acontecendo, e não vou falar nem de quantidade de música horrível que faz parte da minha biografia.

Por exemplo, a primeira música que dancei com um menino. Era festinha de aniversário de uma amiga, ela convidou algumas pessoas e entre elas um guri por quem eu nutria uma paixão platônica há uns tempos. Era um amigo que eu queria que virasse mais do que amigo, mas nunca foi mais do que amigo – enfim, para ele fica reservado o título de “primeira pessoa com quem dancei uma música lenta”, evento canônico na vida de uma adolescente dos anos 90.

A festa era um jantar e depois minha amiga começou a tocar alguns discos na sala. O guri me chamou para dançar e aí alguns detalhes foram completamente apagados da minha memória: ele foi pressionado por minha amiga para me convidar? Eu que fui doida e chamei e lembro errado como se ele tivesse chamado? Não sei, só lembro que eram poucas pessoas e meio que fomos só nós dois ali na sala dançando, talvez só mais um par. Tenho que reconhecer que ele foi corajoso, mas a música que dançamos foi… BED OF FUCKING ROSES DO BON JOVI. Veja bem, era parte da minha personalidade de adolescente idiota “não ser como as outras garotas” e portanto detestar Bon Jovi. Continue lendo “The saddest of songs I’ll sing for you”

Escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore

Foto do Ashikaga Flower Park no Japão, um lugar que eu espero ter visitado com minha vó em alguma outra linha do tempo.

Uma das últimas conversas que tive com minha avó foi no último aniversário que comemoramos na casa dela. Ela falou da vez que achou que minha mãe (ainda bebê) não estava conseguindo respirar e chamaram uma ambulância -e como com todas as histórias da minha vó, do que parece uma história simples do nada o caos se instala e você tem ambulância presa na lama, meu vô sem entender o que estava acontecendo e minha mãe dando um punzinho aliviada quando o socorrista abre os cueiros que estavam muito apertados. Achei engraçado que o que eu considerava um traço da minha ansiedade (checar no meio da noite se o bebê saudável estava respirando) aparentemente é um momento meio universal da experiência da primeira vez como mãe.

A outra coisa que falamos foi sobre a glicínia no quintal dela, que naquele momento já tinha escapado do controle e dominava todo o muro, subindo em galho de árvore, caindo para o lado da casa do vizinho. Descobrimos que compartilhávamos a flor favorita.

Um pouco depois a vó morreu. Sempre que converso com meus parentes sobre isso fico na dúvida se eles realmente entendem o que quero dizer, mas quando retorno para aquele dezembro, penso aliviada que pelo menos foi antes do COVID. A vó tinha problemas pulmonares, teria sido um inferno para ela. Teria sido um inferno para nós também não poder se despedir. Continue lendo “Escrever um livro, ter um filho, plantar uma árvore”

A arte perdida de fazer agenda

Ganhei minha primeira agenda em 1993, era uma de capa dura com uma ilustração fofa do Garfield que logo transformei em diário (talvez o que eu mais evite reler, porque quem é que não tem vergonha da sua própria versão aos 12 anos?). Mas a primeira vez que fiz agenda foi no ano seguinte, depois de ganhar uma do Fido Dido de amigo secreto na escola. Era ainda uma mescla, eu escrevia diário, mas começava ali um hábito que seguiu comigo por muitos anos.

Mesmo na época eu já via o ato de “fazer agenda” como uma espécie de registro do tempo que estava vivendo, para além das coisas que contava no diário – letras de música que ouvia, recortes de gibis que eu lia, propagandas legais de revistas, fotos de ídolos, bilhetes de amigos, convites para festas e, depois de uma certa idade, rótulos de bebidas, propagandas de shows e eventos, camisetinhas feitas com caixa de Marlboro. Reabri-las hoje em dia é como abrir uma cápsula do tempo, muita coisa do que tinha lá não existe mais (cinema por R$2,50, por exemplo). É um pouco codificada, um punhado de coisa sem o menor sentido para quem não viveu o momento, como por exemplo: Continue lendo “A arte perdida de fazer agenda”

Daquela coisa que dá de tempos em tempos

Então que nos últimos dias tenho pensado em acabar com o Hellfire. Assim, sem drama – só tornar oficial uma coisa que já tem acontecido. A verdade é que eu me fiz em mil pedaços (pra você juntaaaaaarops, ok, sem Legião), e acabou que o Hellfire mesmo perdeu um pouco da razão de ser. Falo dos livros que leio lá no Meia Palavra, sobre zumbis no Ministry of Zombie Walks (ok, esse está mortão, coitado), compartilho referências sobre filmes, músicas e livros que gosto lá no meu Tumblr, falo sobre a vida o universo e tudo o mais no Twitter

Aí chega aqui no Hellfire e eu meio que só falo das séries e dos (poucos) filmes que estou vendo, além de caradepaumente copiar e colar post do Meia Palavra. Eu não tenho mais vontade de comentar as coisas como tinha antes, não fico mais pensando no que daria um bom post, enfim, perdi a vontade de escrever aqui.

Sei que já me despedi uma penca de vezes e voltei logo depois, e de repente esta é só mais uma dessas outras vezes. Mas fica aqui pelo menos a explicação do motivo pelo qual não tenho atualizado tão constantemente o blog. Enfim, é isso. Os links de onde me encontrar já estão no primeiro parágrafo do post, tchans.

Eu, excluída digital

Quando você sai da classe “filha” para “mãe”, suas saídas passam a ser todas planejadas. Não rola mais aquela coisa de sair na loca, porque invariavelmente você terá que pensar o que fará com seu filho: vai levar com você? caso não leve, quem fica com ele? E já tem quase uma semana que eu planejei que hoje iria ao TRE, já que começaram a fazer recadastramento dos eleitores, para incluir foto e impressão digital e blablabla. Tem uma escala a ser seguida, que está sendo anunciada por tudo quanto é canto, e coube a mim, nascida em janeiro, estrear a bagaça – teria que fazer o recadastramento agora esse mês.

Então Arthur ficou com a vovó e lá fui eu para o TRE fazer o recadastramento, né. Camelando embaixo do sol, munida de endereço (R. João Parolim!) e toda a documentação que pediam (cpf, título de eleitor, documento de identidade e comprovante de residência), sigo meu caminho para o prédio do TRE. Quase na frente do prédio escuto uma mulher falando ao celular “Foi super rápido!” e fiquei toda animada. Chego na porta e sou recebida por uma enxurrada de estagiários. “Oi, o que você veio fazer aqui?”, pergunta uma delas com um sorriso no rosto.

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Arthur

Então que para que ninguém pense que de repente assim eu tenha batido as botas, cá está a razão do meu sumiço:

Arthur nasceu sábado, dia 11 de setembro, às 8:57 da manhã. Pesando 4,025kgs e medindo 50,5cm veja só o tamanho do garotão =] Insira aqui todos aquelas coisas sobre mudar a vida, felicidade absoluta e amor incondicional que tanto falam e você pensa que são só clichezão e aí quando é com você, descobre que não é bem assim.

Presente de natal

Fábio comprou de presente de natal para mim os livros que estou morrendo de vontade de ler. Problema é que nossas últimas compras na Amazon deram treta ( treta = a Amazon reenviou três vezes e a encomenda nunca chegou). Aí eu estou tensa, né. Esperando a caixa. E então o Fábio que sabe que sou meio assim com essas coisas, já deu o código para eu seguir a encomenda. Até o momento ela já passou por esses lugares:

Sparks (Nevada) -> Sacramento (California) -> Wilmington (Ohio) -> Miami (Florida)

E eu não consigo deixar de pensar na minha caixinha de livros curtindo um clima road movie, de óculos ray-ban e com A Horse With no Name de trilha sonora.

In the desert you can remember your name cause there ain’t no one for to give you no pain” la la laaaaaaaaaaa la la la…. Vamos ver se dessa vez chega, né.

Voltei

Sim, o Hellfire está às moscas desde o dia 5. Como a maior parte de vocês já deve saber, estive na Europa nos últimos dias, e é claro que seria extremamente idiota da minha parte torrar cinco dinheiros por uma hora de internet (a média dos cyber cafés lá). De qualquer modo, fica aqui um registro do retorno e a promessa de que volto a atualizar assim que me recuperar da dor da perda desse grande ícone, Dercy Gonçalves, que se foi sem deixar para mim oportunidade de dizer adeus. Snif.

E também resolvi abrir uma enquete sobre o template novo. Durante um mês o pessoal poderá votar aqui se o lance é o anterior (escuro) ou esse (claro) – de acordo com o resultado e do meu humor, eu mudo. Então vota aí, miudim.

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