Edmund Blair Leighton (1853 – 1922). Sweets to the Sweet.
Os artigos que falam sobre o sucesso da primeira temporada de Bridgerton sempre costumam contextualizar, fazendo uma relação com o a exaustão que sentíamos por causa da pandemia e a necessidade de um escapismo. O romance (e a safadeza) entre pessoas lindas, em cenários lindos usando roupas lindas era o que nossos cérebros cansados precisavam naquele momento. E eu até poderia ter visto tudo isso como uma novidade, não fosse 2018, o que costumo chamar de “Meu ano de leitura e descaralhamento”.
O que aconteceu em 2018? 2018 tivemos a eleição para presidente. No final de semana do segundo turno, descobri uma cura para minhas ansiedades: leitura de romances. Passei o dia todo lendo, fugi de transmissão de tv e fiquei triste quando o bairro comemorou enlouquecido a vitória de Bolsonaro. A partir daí, sempre que estava me sentindo mal sobre *aponta para tudo que está acontecendo agora* tudo isso aí, caçava uma comédia romântica ou um romance histórico e me distraía por algumas horas. É sim escapismo, porque o gênero te garante um desfecho positivo, mesmo que os protagonistas encontrem muitas dificuldades ao longo do caminho. Mas depois de quase dez anos nessa brincadeira, eu me dei conta que a parte das dificuldades a serem vencidas muitas vezes agradam justamente porque tem um pé na nossa realidade.
Cena da série Station Eleven (HBO) que se você ainda não assistiu, deveria assistir.
Acho que nessa altura já estão saindo as listas de livros para ler em 2026 e eu ainda não fiz a minha lista de melhores leituras do ano passado. A real é que tenho um post it com os dez favoritos grudado no computador desde dezembro do ano passado, mas tenho também uma alma procrastinadora, dizer o que.
Enfim, 2025 foi um ano de boas leituras, mas ao mesmo tempo que anima encontrar ótimos livros (e conhecer novos autores), entrei 2026 um tanto desanimada com o cenário atual. Não por causa *aponta para tudo que está acontecendo agora* de tudo isso aí, mas mais porque parece cada vez mais claro que perdemos a luta contra a IA.
Um exemplo é o que é comentado nesse vídeo aqui, sobre a HarperCollins gringa começando a usar IA para tradução. Se um casa editorial grande como a Harper está apostando, tenha certeza que ela não será a única. E se você, pequeno gafanhoto amante de IA acha que “tanto faz, e olha que legal, se não tiver que pagar tradutor talvez o livro fique mais barato” (spoiler: não ficará, digo isso como alguém que achava que ebooks teriam preços mais baixos e não foi o que aconteceu) ou que “IA é inevitável, tem que se acostumar e aprender a usar” (não é) saiba que é uma perda gigante para o leitor a exclusão de um tradutor humano na processo de publicação de um livro.
Eu vou citar como exemplo um caso que vivo trazendo porque para mim foi o que mais deixou evidente a diferença que faz um bom tradutor (humano) tomando decisões (humanas) ao traduzir: a tradução de Grande Sertão: Veredas da Alison Entrekin. Tem quase dez anos do dia que cliquei no link do Word Without Borders com um trecho da tradução. “Nonought. Shots you heard weren’t a shootout, God be. I was training sights on trees in the backyard, at the bottom of the creek. Keeps my aim good.“
Sem brincadeira, meu coração disparou enquanto eu lia. Acho que foi a primeira vez que li algo no caminho inverso do que sempre faço, e foi um daqueles momentos lindos em que você percebe a importância de um trabalho bem feito. Eu li aquele trechinho pequeno com a certeza de que agora sim, os gringos morreriam de inveja da gente porque conheceriam o Rosa.
Não que ele já não tivesse tradução. Uma das traduções em inglês para Grande Serão: Veredas que rolavam por aí é a de 1963, feita por Harriet de Onís e James Taylor, e embora tenha um título massa (The Devil to Pay in the Backlands), dá para sentir que era uma opção de manter mais sentido do que forma, porque aquele começo que citei ficou assim para eles: “It’s nothing. Those shots you heard were not men fighting, God be praised. It was just me there in the back yard, target-shooting down by the creek, to keep in practice. ” Se você não sabe inglês eu sei que você leu as duas versões com voz de adulto do Snoopy, mas confia em mim: as duas dizem exatamente a mesma coisa, mas na primeira a Entrekin faz uma mágica e consegue fazer um sertanejo do Rosa falando em inglês. Na segunda, é apenas uma pessoa falando em inglês.
O sentido se conserva, mas onde o Rosa brilha de verdade, no uso das palavras, fica perdido na tradução da segunda citação. E se eu falo isso é para te mostrar que se tivermos uma IA traduzindo livros, ela não fará um trabalho como o da Entrekin, porque ela não tem capacidade para isso. E isso quer dizer que você estará lendo versões pálidas de obras e nem vai pagar mais barato por isso.
A verdade é que eu queria chegar em 2026 falando coisas como “Nossa, que bonito a Charco Press que coloca os nomes dos tradutores na capa, em lugar de destaque”, mas cá estou eu precisando dizer que pode até ter um monte de função que você pode encontrar para inteligência artificial, mas nunca conte com essa tecnologia para a área criativa. E acho que é isso, fim do devaneio, vamos para os dez favoritos (lista elaborada por mim, e não por uma inteligência artificial que alucina enredo ou títulos).
“Talvez não haja comparação entre Ian dormir com Laura e ‘Cães de Aluguel’, afinal. Ian não tem Harvey Keitel e Tim Roth no elenco. E Ian não é engraçado. Nem violento. E a trilha sonora dele é uma bosta, a julgar pelo que ouvíamos através do teto. Já chega disto.” (Nick Hornby, Alta Fidelidade)
Eu sempre tive certeza de que se minha vida fosse uma comédia romântica, o cara responsável pela trilha sonora teria um senso de humor um tanto peculiar. As canções nunca batem com o que está acontecendo, e não vou falar nem de quantidade de música horrível que faz parte da minha biografia.
Por exemplo, a primeira música que dancei com um menino. Era festinha de aniversário de uma amiga, ela convidou algumas pessoas e entre elas um guri por quem eu nutria uma paixão platônica há uns tempos. Era um amigo que eu queria que virasse mais do que amigo, mas nunca foi mais do que amigo – enfim, para ele fica reservado o título de “primeira pessoa com quem dancei uma música lenta”, evento canônico na vida de uma adolescente dos anos 90.
A festa era um jantar e depois minha amiga começou a tocar alguns discos na sala. O guri me chamou para dançar e aí alguns detalhes foram completamente apagados da minha memória: ele foi pressionado por minha amiga para me convidar? Eu que fui doida e chamei e lembro errado como se ele tivesse chamado? Não sei, só lembro que eram poucas pessoas e meio que fomos só nós dois ali na sala dançando, talvez só mais um par. Tenho que reconhecer que ele foi corajoso, mas a música que dançamos foi… BED OF FUCKING ROSES DO BON JOVI. Veja bem, era parte da minha personalidade de adolescente idiota “não ser como as outras garotas” e portanto detestar Bon Jovi. Continue lendo “The saddest of songs I’ll sing for you”
Lançado lá fora agora em 2025 e ainda sem tradução no Brasil, The Compound é romance de estreia da escritora irlandesa Aisling Rawle e ganhou recentemente o prêmio do Goodreads de melhor Ficção Científica (já vou falar sobre isso). Também apareceu em um monte de lista de melhores livros de 2025, e confesso, sou fraca, acabei cedendo à curiosidade e resolvi ler agora no começo do mês.
A proposta é a seguinte: a narradora participa de um reality show num futuro incerto (mas aparentemente não muito distante) onde 10 homens e 10 mulheres competirão para ganhar produtos luxuosos, talvez patrocínio de marcas, itens para a casa onde estão vivendo. Uma das poucas regras, ou pelo menos a mais importante, é que pelo menos até a casa ficar com apenas cinco participantes, uma pessoa SEMPRE terá que dormir na mesma cama que alguém do outro gênero (sim, terrivelmente heterossexual, e uma personagem faz comentário sobre isso). Caso a pessoa passe a noite sozinha, ao amanhecer ela deverá deixar a casa e a competição.
Em algum momento ali em 2023 quando eu estava em uma fase mais crackuda de Anime (o que incluiu assinar o Crunchyroll e finalmente me apaixonar por Yuri!! on Ice como 11 em cada 10 pessoas que assistem Yuri!! on Ice) fiquei sabendo de uma duologia que, reza a lenda, a sua percepção da história muda conforme a ordem que você assiste aos filmes. Achei que seria algo na linha de Dois Lados do Amor, mas não foi bem assim.
To Me, The One Who Loved You (filme rosa) e To Every You I’ve Loved Before (filme azul) são romances envolvendo realidades paralelas – sempre que você ler comentários sobre as duas histórias, notará que as pessoas mencionarão a ordem que assistiram. Eu vi o rosa e depois o azul, e jamais poderei confirmar se a ordem afeta a percepção porque afinal de contas, agora eu já tenho a informação sobre as duas animações. De qualquer forma, gostei dos dois, mas senti que o segundo me pegou de jeito (como já falei aqui mais de uma vez, sou chorona então quando eu digo “me pegou de jeito” entenda-se: fiquei chorando e achando lindo um amor que existiu em todas as realidades possíveis e blablabla).
Robert Frost e T.S. Eliot são dois poetas nascidos no fim do século XIX que tem em comum o fato de apesar de serem tecnicamente norte-americanos (o Eliot se tornou cidadão britânico em 1927), estavam na Inglaterra no início da Primeira Grande Guerra Mundial. É o tipo de informação que nunca passou pela minha cabeça checar até esse momento, quando eu estava para começar o post fazendo um comentário sobre poetas imaginando o fim do mundo em suas poesias.
Caiu a ficha que o tema não só é parecido, mas eles publicaram os poemas mais ou menos na mesma época (primeira metade da década de 20, já no pós-Guerra). O meu comentário inicial seguiria mais ou menos na linha “lembra quando falar de fim do mundo era só um exercício de imaginação de poetas?“, chamando a atenção para o fato de que agora parece que todo dia alguma coisa nos aproxima do momento final. E aí eu vi a desilusão deles e, ah. É sempre um baque perceber que nada é novo e que aparentemente estamos sempre cometendo os mesmos erros. Nem nossas ansiedades são novidade.
Ao responder uma pessoa sobre o que tornava uma história sobre um fazendeiro triste na Islândia seu livro favorito, a protagonista de Heart the Lover de Lily King fala: “Você sabe quando você consegue lembrar exatamente quando e onde você leu certos livros? Um romance genial, verdadeiramente genial, não apenas captura uma experiência ficcional em particular, ela altera e intensifica a forma como você sente sua própria vida enquanto você o lê. E ele o preserva, como uma capsula do tempo.” (tradução torta minha, o livro ainda não foi lançado no Brasil).
Alex Lyons é um crítico de teatro famoso por ser filho de uma atriz famosa e por só dar uma estrela para as peças que assiste. Diz que isso aumenta o valor das (raras) cinco estrelas e que se não fosse o critério do jornal para qual escreve obrigá-lo a usar pelo menos uma estrela, daria zero sem dó. Durante o Festival de Edimburgo ele assiste a um monólogo sobre emergência climática e ao sair envia o texto para o jornal com uma crítica destruindo a apresentação. E bem, é parte do jogo, não tem problema. A questão é que logo depois de enviar a crítica para a publicação, ele encontra Hayley – a roteirista/atriz da peça detonada – num bar, e mesmo sabendo que é a artista responsável pela apresentação que ele acabou de destruir, a leva para o apartamento onde está hospedado e passa a noite com a garota.
Esse é o ponto de partida de Bring the House Down, romance de estreia de Charlotte Runcie (ainda sem tradução no Brasil). Logo depois de descobrir que o carinha com quem passou a noite é o autor da crítica, Hayley modifica a apresentação a transformando em uma espécie de exorcismo do trauma – ela expõe para o público o que aconteceu, e convida as pessoas da plateia para falarem de outras situações em que Alex Lyons foi um babaca. O show viraliza em toda aquela onda girl power contra homens tóxicos e a situação foge completamente de controle, tanto para Alex quanto para Hayley. Continue lendo “Bring the House Down (Charlotte Runcie)”
Era uma vez um texto que rodou bastante a internet ali no começo dos 2000 (ou seja, ainda era recebido em e-mails ou aparecia como posts em fóruns de discussão) e apresentava um título que prometia a versão “verdadeira” dos contos de fadas. Saem os casamentos com príncipes e finais felizes, entram histórias macabras com olhos arrancados, pés decepados e muito, muito sangue. Mas esse uso do termo “verdadeira” é coisa típica de internet, a certeza de saber o que na realidade não sabe, né? Porque a ideia de uma versão ser a “verdadeira” vai contra a própria natureza dos contos, que segundo Angela Carter, tratam-se de “histórias anônimas que podem ser reelaboradas vezes sem fim por quem as conta“. 1
Então, quando falamos de contos de fadas não temos uma versão “verdadeira”, mas várias – é normal a releitura, o reconto. E essa natureza mutante do conto popular continua viva, porque mesmo que o diálogo inicial parta de uma versão de conto lá da Coleção Disquinho, por exemplo, ela segue sendo recontada em livros, filmes e afins. E eu não estou falando desses live-actions totalmente dispensáveis da Disney, é óbvio. Falo de releituras como o filme The Ugly Stepsister (dirigido por Emilie Kristine Blichfeldt) e o livro Sour Cherry de Natalia Theodoridou. Continue lendo “Mais apavorante do que a ficção”
The Echoes da anglo-australiana Evie Wyld (ainda sem tradução no Brasil) inicia com o que é até o momento minha frase de abertura favorita das leituras de 2025. Diz o narrador: “Eu não acredito em fantasmas, o que desde minha morte vem sendo um problema.”. O fantasma-narrador conversa com o leitor de um ponto recente do pós-vida, ele ainda não sabe o que precisa fazer para sair daquela situação, ele não sabe o que pode fazer já que é um ser incorpóreo e invisível. Ele também não lembra como morreu. Mas sabe que está preso na casa onde vivia com a namorada Hannah.
O que eu gosto desse primeiro capítulo é que de certa forma ele já nos apresenta o tom da história, mesmo que ela cresça em forma nos capítulos seguintes: é engraçada na mesma medida em que é melancólica. Ela é, principalmente, uma reflexão sobre como nossas ações no passado acabam repercutindo não só no nosso presente, mas nos dos outros também. E isso conseguimos ver inclusive na estrutura do romance: Max é o mestre de cerimônias, abre o livro com seu capítulo em primeira pessoa que também iniciará a sequência de capítulos que estruturará o livro.
Depois de Max vem sempre Hannah, num passado pouco distante, registrando os últimos meses antes da morte de Max – os capítulos em terceira pessoa. Depois desse passado recente somos jogados para um passado mais distante, na adolescência de Hannah vivida na área rural australiana. Finalmente, fechando a sequência, vemos um pedaço da vida de uma das pessoas desse passado distante de Hannah. Como dá para perceber, Max não é a personagem principal -e de certa forma ele nem será o personagem principal da vida de Hannah. Mas é um daqueles casos de pessoas que passam na nossa vida e deixam uma marca, que (nesse caso literalmente) nos assombram mesmo depois de anos.