Noites de Alface (Vanessa Barbara)

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noitesdealfaceOtto e Ada viveram juntos na casa amarela por muitos anos, até que um dia Ada morre, e Otto fica para trás tendo que lidar não só com a perda da esposa, mas com a solidão que chegara depois de anos pensando e fazendo tudo em dupla. Assim, pense em uma versão com idosos de alguns versos de I just don’t know what to do with myself: I just don’t know what to do with myself/Don’t know just what to do with myself/I’m so used to doing everything with you/Planning everything for two/And now that we’re through… Esse será o motor principal de Noites de Alface, de Vanessa Barbara. Infeliz com a perda da esposa, Otto mescla memórias dela com observações que vai fazendo da vizinhança da cidadezinha do interior, “adivinhando” o que acontece nas outras casas a partir do que Ada lhe contara, e dos barulhos que escuta.

E aos poucos, nós mesmos vamos conhecendo a vizinhança, num modelo que de certa forma se aproxima de The Brief History of the Dead que eu acabei de ler, com um capítulo concentrado em uma personagem. A diferença é que se no livro americano eu não achei que as personagens foram bem desenvolvidas dentro desse modelo, em Noites de Alface eu fiquei surpresa como a autora conseguiu desenvolver tão bem cada uma das figuras da cidadezinha, de torná-las tão palpáveis e carismáticas ao ponto de prenderem sua atenção mesmo que o que esteja retratado ali seja mero cotidiano: datilografa, vende remédio, bate iogurte no liquidificador, etc. Não há nada de realmente extraordinário (pelo menos aparentemente, já falo disso), mas cada um deles acaba conquistando sua atenção, como se fossem todos protagonistas junto ao Otto.

O truque de Vanessa Barbara é que um capítulo nunca é sobre uma personagem, então eles vão sendo desenvolvidos de forma coesa, ou ainda, sendo revelados ao leitor como se ele fosse alguém de fora que acabou de se mudar para a vizinhança. Manias de um acabam virando figura de linguagem outros momentos, de modo a reforçar as características desse grupo, como por exemplo, “tão exaustivo quanto atravessar o estreito de Dover”, fazendo referência à ambição do farmacêutico Nico de fazer tal travessia a nado. Tudo é construído de tal maneira que quando se fala de algo que Otto está assistindo sobre um psicopata que matou coelhinhos, já sabemos qual será a reação dele – e inclusive a razão disso.

E o resultado disso é uma história fluida, gostosa mesmo de ler. Aliás, daquelas que você passa por alguns trechos com um sorrisinho no canto da boca, não só porque são situações engraçadas ou doces, mas porque consegue reconhecer aquelas personagens em pessoas com quem convive. E tudo isso, vale lembrar, enquanto trata sobre a dor da perda de uma pessoa querida. Os momentos em que depois de devaneios sobre os vizinhos Otto se dá conta que sua realidade é nova, uma realidade sem Ada, são tocantes até por virem através de pequenos retratos cotidianos, carregados de simplicidade. Acho que o trecho que melhor representa isso é justamente o parágrafo que abre o romance:

Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dento do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoitos abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias.

Há, é claro, outros tantos momentos, como o comentário sobre um programa de tv lançado para uma poltrona vazia, ou a própria definição de noites de alface (não sei sobre você, mas adoro quando chego na parte do livro que explica o título, ha ha). Eu não sei se é o tipo de coisa que acaba comovendo só quem já esteve em situação semelhante, se de repente fique sutil demais para quem ainda não tenha se encontrado em um momento assim, de qualquer forma achei fantástico o modo como a autora consegue abordar o assunto sem recorrer ao que seria um óbvio tom lúgubre: o texto, vale lembrar, é carregado de humor. A conversa de Iolanda e Nico sobre câncer, por exemplo, é engraçadíssima, e você quase consegue se imaginar atrás da Iolanda na fila da farmácia e escutando a história, de tão dinâmico que é o diálogo.

E então chega o momento do mistério, que no começo me causou certa estranheza. Veja bem, você segue aqui e acolá com os pequenos recortes da vida dos vizinhos de Otto, para de repente ser tragado para uma trama policial. Ok, sendo honesta: já tínhamos pistas de que a narrativa iria para esse lado, com as dúvidas de Otto sobre quem seria a ruivinha que passa roupas, ou o garoto de capuz. Mas é que o capítulo Andrew D. Boring parece quase pertencente à outra história, não a que líamos até então. (A partir daqui, spoilers, pule para o último parágrafo caso queira evitá-los) Qual a necessidade do crime, do assassinato do carteiro quando o livro por si só já tinha mostrado que não precisava de nenhum evento extraordinário para ser um bom livro?

Aí pensei na reação de Otto no último capítulo: “Puxou a manta para encobrir melhor o joelho e sintonizou no Canal Animal, onde certamente haveria algo de interessante até o fim dos seus dias. Não assistiria mais a séries policiais, decidiu, nunca mais.“, o que me parece uma boa indicação de que toda a ideia do assassinato e da tentativa da vizinhança inteira encobri-lo nada mais é do que uma tentativa de Otto de atribuir um sentido para a morte de sua esposa. Vale lembrar, ela apenas morreu porque não recebeu seus exames a tempo, porque o carteiro deixou de passar por duas semanas. Toda a trama detetivesca seria uma forma de Otto (apaixonado por séries e romances policiais) firmar a ideia de que não, não foi por acaso. Não poderia ser por acaso.

Sei que pode ser só uma alopração minha e que de repente o romance só fica meio esquizóide mesmo, de qualquer forma, mesmo que seja esse o caso, ainda assim não tem como tirar os méritos da obra, principalmente por conseguir tão bem tirar beleza da simplicidade, além de apresentar para o leitor uma galeria de personagens tão queridas e tão marcantes. Acho que depois de uma leitura pesada como House of Leaves e meio deprê como The Brief History of the Dead eu realmente estava precisando de um livro leve como Noites de Alface.

PS. Gente, sabe quando uns nomes dão tilt na cabeça? O da Vanessa Barbara dá na minha. Eu quase sempre falo Mara Vanessa, e eu sei que fora o Vanessa não tem absolutamente nada a ver, mas aí começo a pensar na musiquinha do Pantene e AHHHHHHHHHHHHHHHHhhhrgh, me confundo toda. Enfim, tudo isso só para dizer que se escrevi aí no texto um Mara Vanessa, desculpa, mas meu cérebro faz dessas comigo.

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4 opiniões sobre “Noites de Alface (Vanessa Barbara)”

  1. Li metade da tua resenha, por ter spoilers, decidi evitar o restante.
    Confesso que estou ansiosa por essa obra. Gosto muito do processo criativo da Vanessa, desde “O Livro Amarelo do Terminal”, que é um livro visualmente atraente e literariamente encantador.
    Abraços.

  2. Parece delicado. Estava procurando uma indicação legal. Gosto muito do seu jeito de contar o que leu. Spoilers, para mim, são necessários na decisão de comprar ou não o livro.

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