Então que uns tempos atrás eu resolvi ver a adaptação para o cinema do romance de Gabriel García Marquez, O amor nos tempos do cólera. Eu até cheguei a comentar aqui que através do que assisti, achei que alguns temas bastante parecidos com um outro livro do mesmo autor que li ainda esse ano, Memória de minhas putas tristes. Estava tudo ali, o amor, a velhice, a solidão. A questão é que agora ao terminar de ler o livro, me dou conta que mais uma vez a adaptação acabou deixando de lado alguns detalhes que combinados tornam-se extremamente relevantes para a compreensão das ações das personagens.
O enredo desse livro publicado na metade da década de 80 já é bem conhecido daqueles que gostam de literatura: ainda moço Florentino se apaixona por Firmina, que inicialmente o corresponde mas então corta relações com um frio “Não, por favor, me esqueça!”. Logo depois ela casa-se com um médico famoso na região, o doutor Juvenal Urbino. E surpreendentemente, Florentino continua apaixonado pela mulher por mais de 50 anos, como que a esperando.
Um dos pontos que diferencia o livro do filme fica por conta da narração, que é justamente um dos destaques da obra. O amor nos tempos do cólera poderia ser mais um romance, mas o modo como Marquez cuida das linhas da vida de cada uma das três personagens principais (Florentino, Firmina e Urbino) é impecável, quando poderia ser um desastre. O trio é fundamental para a história, não há “mocinho” e em alguns momentos é até difícil torcer para que Firmina largue o marido para ficar com Florentino, por causa das características que o autor vai imprimindo a cada uma das personagens ao mudar o foco da narração de um para outro.
Marquez também lida magistralmente com o tempo, saltando do presente para o passado com uma fluidez atípica para obras que seguem esse rumo. O que quero dizer é: em alguns livros essa decisão pelo tempo costuma complicar a narrativa, fazendo que um leitor de primeira viagem se “canse” e logo abandone a leitura. O amor nos tempos do cólera é à prova de abandono, sem necessariamente ser simplista.
É realmente um livro fantástico, daqueles que valem a pena serem lidos. Na realidade, eu acho que compensa assistir a versão para o cinema que é até interessante, e Javier Barden dá conta da questão de transformar Florentino no que Firmina dizia ser “uma sombra”. Mas é uma daquelas situações na qual o livro é infinitamente superior, exatamente pelo que falei no começo: a combinação dos detalhes.
E para terminar, uma curiosidade: há pouco tempo eu costumava chamar o livro como O amor nos tempos de cólera. Achava que o autor tinha feito lá qualquer brincadeira sobre amor e ira (cólera, sacou, sacou?). Bem, minha cara caiu quando descobri que o título era O amor nos tempos do cólera, sem trocadilhos, apenas a doença. Pois bem, contrariando a fama de títulos ruins, eis que acabo de descobrir que o primeiro título é utilizado em Portugal. E apesar de meu espanhol ser uma caca, eu sei usar a internetz para descobrir que há pouca possibilidade de Marquez ter escolhido esse título pensando nesse trocadilho. Mas mesmo assim, adotarei o termo lusitano daqui para frente, há!





kalina saraiva de lima
06 de novembro, 2009 às 15:06
oi ana
encontrei seu site ontem e adorei ler algumas resenhas de
filmes e livros. parabens e obrigada pelo trabalho otimo.
acho bacana como voce dispoe o site, tao organizado e facil pra gente localizar o que quiser ler.
um abraco
kalina
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Anica Resposta:
novembro 8th, 2009 at 10:23 am
Valeuzão, Kalina ;D
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