Uma Longa Queda
E eis que finalmente posso conferir o (já não tão) novo Hornby, Uma Longa Queda. Aliás, o período do ano não poderia ser mais apropriado: a história começa com o encontro de quatro estranhos no topo de um edifício de Londres, famoso por ser o local preferido dos suicidas, na véspera do Ano Novo. Martin, Maureen, JJ e Jess, que não têm nada em comum a não ser o fato de que, naquele dia tinham resolvido cometer o suicídio, mal percebem quando pouco a pouco cada um vai tomando um espaço em suas vidas.
O divertido da história é que ela é contada sob o ponto de vista dos quatro, em primeira pessoa. Assim, as características de cada um ficam claras no discurso, como por exemplo a Jess, que fala sem parar e utiliza um palavrão a cada quatro palavras, ou Maureen, que é toda recatada (na verdade um oposto perfeito da Jess). E como a história é contada por cada um deles, de certa forma você vai conhecendo as personagens junto com os demais.
Assim, é quase como fazer novos amigos. E aqui, é claro, a história é recheada daquele humor típico do Hornby, que faz total diferença em um livro que tinha tudo para ser o mais deprê de todos os tempos (afinal, não vamos esquecer que as personagens-narradoras são todas suicidas, certo?). Só para variar, há alguns momentos que simplesmente não tem como segurar o riso, lembrando muito o dia do pato de Um Grande Garoto.
É verdade que na terceira parte o livro perde um pouco o pique, mas é bem legal perceber como Hornby nos conduz de um evento para outro como se estivéssemos em uma montanha russa. É aquele tipo de história que nos faz lembrar que, acima de tudo, ler tem que ser um prazer.
Segue um trechinho:
Tags: literatura estrangeira, livros, nick hornby“(…) - E se a gente tivesse visto alguma coisa?
- Tipo o quê? O que deveríamos ter visto?
- Que tal se a gente tivesse visto um anjo?
- Um anjo - disse JJ sem acreditar.
- É.
- Eu não vi anjo nenhum - disse Maureen. - Quando você viu um anjo?
- Ninguém viu anjo nenhum - expliquei. - Jess está propondo que inventemos uma experiência espiritual para ganharmos dinheiro.
- Que horror - disse Maureen, pelo menos porque era claramente previsível que ela reagisse dessa forma.
- Não é exatamente uma invenção, é? - disse Jess.
- Não? Em que sentido de fato vimos um anjo?
- Como se chama isso em poesia?
- O que foi que disse?
- Você sabe, nos poemas. E na literatura inglesa. Às vezes se diz que alguma coisa é igual a alguma coisa e às vezes se diz que alguma coisa é alguma coisa. Você sabe, meu amor é como a porra de uma rosa ou, outra coisa qualquer.
- Símiles e metáforas.
- É. Exatamente. Foi Shakespeare que inventou esse bagulho, não foi? Por isso ele era um gênio.
- Não.
- Então quem foi?
- Deixa para lá.
- Por que Shakespeare foi um gênio? O que ele fez?
- Outra hora falamos sobre isso.”





Sabe, eu resolvi dar uma nova chance ao Hornby e li o Febre de Bola, pois é um livro sobre um assunto que eu adoro. Resultado: confirmado, Gugu é melhor que Nick Hornby.
vc que não está no momento certo para ele então =P
Só digo uma coisa: eu seria menos eu se nunca tivesse lido o Nick Hornby.