O fascínio das pessoas por casos não resolvidos (e resolvidos também!) de assassinatos em série sempre me deixa com uma pulga atrás da orelha, porque costumo lembrar de Mickey e Mallory Knox do filme do Oliver Stone, Assassinos Por Natureza. No filme, Mickey e Mallory fogem da cidade onde vivem e deixam para trás um rastro de assassinatos, roubos e afins.
A “surpresa” no filme é como Oliver Stone trata com sublime ironia a distorção que a mídia provoca, transformando em queridinhos da América uma dupla de assassinos loucos. A entrevista entre Mickey e o repórter Wayne Gale chega a um dos pontos máximos quando Mickey diz que “Frankenstein teve que matar o Dr. Frankenstein“.
Por uma ironia cinematográfica, o mesmo ator que representou o repórter Wayne Gale, Robert Downey Junior, reaparece como repórter em um caso de assassino serial. Em Zodíaco (de David Fincher), ele é Paul Avery, igualmente desesperado por um “furo” de reportagem que o colocasse sob os holofotes.
Mas embora a representação da mídia seja a mesma em ambos os filmes, as semelhanças param por aí. No que Assassinos por Natureza tem de deboche e humor negro, Zodíaco tem de tensão. Enquanto o primeiro é quase surreal no enfoque de celebridades assassinas, o segundo agarra com unhas e dentes as histórias das pessoas que estavam vivendo sob a tensão das ameaças do Zodíaco.
E, claro, o principal: David Fincher não endeusa nem dá muito espaço para o assassino. Talvez esse seja o ponto que tenha decepcionado muitas das pessoas que assistiram ao filme. Não é exatamente uma história de polícia pegando bandido, mas de pessoas obcecadas por uma conclusão.
Robert Graysmith, cartunista de um jornal de São Francisco, segue atrás de uma resposta como se aquilo fosse a solução para a sua vida (não deixem de notar a relação entre o momento em que Paul Avery começa a se aproximar dele – a aceitação social que ele queria – a partir do momento que Robert dá algumas idéias boas sobre os crimes).
Acompanhar os anos passando e a influência que aquele assassino teve na decadência das vidas daquelas pessoas tira todo o glamour ao redor do Zodíaco. Eu, sinceramente, acho que esse é um ponto extremamente favorável no filme do Fincher. Assassinos são assassinos, e jamais deveriam ganhar honras de heróis.
Vale a pena conferir, se você pensar que o filme está mais para drama do que para thriller. Se quer só tensão (embora seja inegável que o diretor a desenvolve *muito* bem), passe longe e alugue qualquer filme baseado no Zodíaco, no qual a personagem principal não seja a obsessão pela resposta.




Ronzi
31 de julho, 2007 às 14:39
Ingmar Bergman morreu.
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Anica
31 de julho, 2007 às 16:33
Antonioni também. Não que ambos estivessem produzindo coisa nova ou tivessem intenção de, mas enfim, eu acho triste.
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Ronzi Zacchi
31 de julho, 2007 às 17:38
Bem, vou beber uma garrafa de vodka em honra deles hoje :dente:
Pensando bem, eles que se fodam. Vou beber por que acordei niilista.
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Anica
31 de julho, 2007 às 19:04
isso é pelo lance dos 26?
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Lukaz
31 de julho, 2007 às 21:47
Eu não gostei de Zodiaco. Não fiquei tenso em hora nenhuma. Chegou a um determinado ponto em que eu comecei a questionar a existencia do Zodiaco, por que as mortes não tinham conexão nenhuma. E acho que faltou justamente o que você mais gostou, que foi a obsessão nas pessoas.
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Fabiano
31 de julho, 2007 às 21:54
Achei Zodíaco um tédio. Quase dormi no cinema.
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Anica
01 de agosto, 2007 às 09:02
Eu pensei em vocês dois enquanto escrevia
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Ronzi
01 de agosto, 2007 às 10:00
Nada, andei lendo Ana Cristina Cesar demais…
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Pips
03 de agosto, 2007 às 09:57
“Assassinos por Natureza” parece Nietzsche filmado
Pena que o Tarantino achou que o Oliver Stone tirou toda a violência.
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