• Se (ou: Sobre Melissas e epifanias)

    Quando acontece algo incomum na sua vida – mais para o mal do que para o bem – é comum costumarmos avaliar todas as pequenas ações ou decisões que nos levaram para aqui. Ontem, por exemplo.

    Se o Fábio não tivesse hora marcada no contador e eu me oferecido para ir junto,

    Se eu não tivesse decidido usar Melissa ao invés de tamanco de madeira,

    Se o almoço não tivesse atrasado,

    Se a Melissa não tivesse arrebentado,

    Se eu não tivesse ligado para casa pedindo que levassem o tamanco de madeira até onde eu estava,

    Se minha mãe não tivesse alcançado a Renata a tempo de fazê-la entregar o tamanco para mim antes de sair,

    Se eu não estivesse atrasada e por causa disso, tivesse aceito a carona da Renata até o lugar onde fiquei de encontrar o Fábio

    Se eu tivesse pedido para a Renata me deixar um pouco mais na frente do lugar onde eu marquei com o Fábio

    etc.

    Enfim, SE tanta coisa, minha irmã não teria batido o carro ontem. Não foi nada sério, mesmo o casal que estava na moto que bateu nela estava ok (embora eu ache que a ambulância demorou muito – o que aumentou toda a tensão de todo mundo ali, porque o casal ficou estirado no chão e não se mexia para evitar lesões sérias). E eu confesso que por algum período de tempo fui tragada num buraco negro – porque não lembro de ter ouvido o barulho da batida (foi segundos depois de eu descer do carro), nem consigo lembrar exatamente o que foi que eu fiz depois que me dei conta do fato.

    Mas é isso. Experiência incomum, e aquele monte de se brotando na cabeça. Não é de assustar, se dar conta que esse tipo de cadeia de eventos guia TODA a nossa vida? Que coisas para as quais não damos a mínima importância num segundo, no outro podem ter feito toda a diferença?

    Por via das dúvidas, vou parar de usar Melissas.

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