• Idéias estranhas

    Eu gosto da Sol. Mas tem vezes que ela encasqueta com umas idéias meio estranhas que eu não sei de onde ela tira. E aí eu começo a pensar no que fez ela chegar a essas conclusões, e fico confusa: ela vê demais ou sou eu que vejo de menos?

    “Ah, a Anica… eu adoro quando ela começa a falar coisas sem sentido.”

    ***

    Eu deveria ser menos egoísta e compartilhar um pouco mais do que descobri sobre Vinícius de Moraes durante esse semestre. Enfim, fica aqui uma balada dele que eu não conhecia e que me apaixonei de primeira.

    E vocês podem ficar meio envergonhados fazendo isso, mas peloarmodedeus, LEIAM ESSE POEMA EM VOZ ALTA! Sintam o ritmo, é simplesmente fantástico!

    Balada do enterrado vivo (Vinícius de Moraes)

    Na mais medonha das trevas
    Acabei de despertar
    Soterrado sob um túmulo.
    De nada chego a lembrar
    Sinto meu corpo pesar
    Como se fosse de chumbo.
    Não posso me levantar
    Debalde tentei clamar
    Aos habitantes do mundo.
    Tenho um minuto de vida
    Em breve estará perdida
    Quando eu quiser respirar.
    Meu caixão me prende os braços.
    Enorme, a tampa fechada
    Roça-me quase a cabeça.
    Se ao menos a escuridão
    Não estivesse tão espessa!
    Se eu conseguisse fincar
    Os joelhos nessa tampa
    E os sete palmos de terra
    Do fundo à campa rasgar!
    Se um som eu chegasse a ouvir
    No oco deste caixão
    Que não fosse esse soturno
    Bater do meu coração!
    Se eu conseguisse esticar
    Os braços num repelão
    Inda rasgassem-me a carne
    Os ossos que restarão!
    Se eu pudesse me virar
    As omoplatas romper
    Na fúria de uma evasão
    Ou se eu pudesse sorrir
    Ou de ódio me estrangular
    E de outra morte morrer!

    Mas só me resta esperar
    Suster a respiração
    Sentindo o sangue subir-me
    Como a lava de um vulcão
    Enquanto a terra me esmaga
    O caixão me oprime os membros
    A gravata me asfixia
    E um lenço me cerra os dentes!
    Não há como me mover
    E este lenço desatar
    Não há como desmanchar
    O laço que os pés me prende!
    Bate, bate, mão aflita
    No fundo deste caixão
    Marca a angústia dos segundos
    Que sem ar se extinguirão!
    Lutai, pés espavoridos
    Presos num nó de cordão
    Que acima, os homens passando
    Não ouvem vossa aflição!
    Raspa, cara enlouquecida
    Contra a lenha da prisão
    Pesando sobre teus olhos
    Há sete palmos de chão!
    Corre mente desvairada
    Sem consolo e sem perdão
    Que nem a prece te ocorre
    À louca imaginação!
    Busca o ar que se te finda
    Na caverna do pulmão
    O pouco que tens ainda
    Te há de erguer na convulsão
    Que romperá teu sepulcro
    E os sete palmos de chão:
    Não te restassem por cima
    Setecentos de amplidão!

    Blog Widget by LinkWithin



     Comentários